Assisti recentemente a uma análise do mercado imobiliário português apresentada por Gonçalo Nascimento Rodrigues, economista que acompanha de perto o setor. Saí de lá com notas — e com perguntas. Partilho aqui algumas reflexões, com a honestidade que esta profissão exige.
Há uma coisa que aprendi a fazer nesta profissão: separar o que sei do que acho. E separar o que acho do que espero que aconteça — porque os meus interesses como consultor não podem contaminar a leitura que faço do mercado.
Dito isto, partilho as ideias que mais me ficaram da apresentação.
O mercado resistiu — e isso merece ser explicado
Em 2023, muitos esperavam uma correção de preços. O crédito estava mais caro, as vendas caíram quase 19%. A lógica dizia que os preços teriam de ceder.
Não cederam. E a explicação está no encontro entre quem consegue comprar e quem está disposto a vender: quando a oferta é escassa e os vendedores não têm urgência em vender, os preços tendem a resistir mesmo com menos compradores.
Isto não é uma boa ou má notícia — é simplesmente o mecanismo. E percebê-lo ajuda a tomar melhores decisões, de qualquer lado da transação.
2026: sinais que merecem atenção
O BCE voltou a subir as taxas. A taxa de depósito está agora nos 2,50%. O crédito continua a crescer — mais 12,6% no primeiro semestre face ao ano anterior — mas fica progressivamente mais caro.
O que isto pode significar na prática: para a mesma prestação mensal, o comprador consegue um montante de crédito menor. Um orçamento aprovado há seis meses pode já não refletir a realidade de hoje.
Ao mesmo tempo, as vendas estão a abrandar. Os preços continuam elevados. O tempo médio de venda pode voltar a aumentar.
O que não vou dizer
Não vou dizer que é um bom ou mau momento para comprar. Não é o meu papel — e seria desonesto da minha parte, porque a resposta depende sempre da situação específica de cada pessoa: do seu orçamento real, do seu horizonte temporal, do imóvel em questão e da zona.
Também não vou dizer que os preços vão subir ou descer. Não sei. Ninguém sabe. O que a análise mostra é que existem pressões em sentidos contrários — e que o resultado dependerá de variáveis que ainda não estão definidas.
O que posso dizer é isto: num mercado com estas características, a qualidade da informação e da análise local fazem ainda mais diferença do que em mercados mais previsíveis.
Uma nota sobre o papel do consultor
Uma das ideias que mais me marcou na apresentação foi a ideia de que, para um agente imobiliário, perceber o contexto macroeconómico já não é opcional.
Concordo. E acrescento: é também uma responsabilidade ética. Conhecer o mercado em profundidade é o que nos permite ajudar os clientes a tomar decisões informadas — não decisões que nos sejam convenientes.
Esta profissão tem influência no mercado. Uma boa angariação, um preço bem definido, uma negociação equilibrada — tudo isto tem impacto real nas transações e, em agregado, nos preços. É um peso que levo a sério.
Para terminar — uma pergunta
O mercado imobiliário está sempre em movimento. As condições de 2026 não são as de 2023, nem as de 2020. O que não muda é a necessidade de o compreender antes de agir.
Se tens uma decisão imobiliária pela frente — comprar, vender, investir — a minha sugestão é sempre a mesma: começa por perceber bem o contexto. E faz as perguntas certas.
O que é que te preocupa mais na decisão que tens pela frente? Escreve-me — não para te vender nada, mas porque essas conversas, quando são honestas, costumam clarificar muito.
Reflexões a partir da apresentação “O Mercado Posto à Prova” de Gonçalo Nascimento Rodrigues (RE/MAX Latina, 21 setembro 2026).

















